Assim que chegou encontrou Marcela na sala. Ela se ergueu indo ao bar. Ficou observando-a enquanto servia duas taças de vinho. Sentou aceitando a taça que Marcela ofereceu sentando ao seu lado.
– Obrigada!
Marcela inclinou o rosto roçando a boca na face de Carmem.
– Por que não contou tudo a ele, Carmem?
– Não é problema meu, além do mais, não sou informante de jornalistas. Tenho mais o que fazer.
– Pensei que fosse por lealdade.
Carmem sustentou os olhos dela com um sorriso irônico.
– Não deixa de ser, não é mesmo?
Marcela sorriu misteriosa levando a taça aos lábios questionando em seguida:
– Seu dia foi bom?
– Mais ou menos, aquela notícia absurda nos jornais incomodou-me.
Calou-se ansiosa por um instante.
– Você deve ter lido. Aqueles jornalistas ligando o tempo todo foi um grande transtorno.
– Bobagem, não dê crédito, logo irão esquecer-se dessa notícia.
Marcela garantiu imperturbável.
– Sei lá. Não esquecem nada que tem a ver com você. Falando nisto, o que estava fazendo naquele bar? Estava me seguindo?
– Eu? Carmem, por favor! Não tenho tempo para isto. Só estava passando.
– Você passando?
Ela sorriu incrédula.
– Desculpe, mas você não é mulher de passar. Deixou o rapaz com água na boca. Ficou com uma cara, aff.
– Coitado! Isto quer dizer que você ficou com ciúmes dele?
Marcela perguntou divertida.
– Só me faltava essa, sentir ciúmes de você. Se não fosse trágico seria cômico.
– Realmente, mas tenho certeza que percebeu que só consegui olhar para você. Vamos jantar meu bem? Posso chamá-la de meu bem?
– Adiantaria falar que não?
– Pode estar certa que perderia o seu tempo.
– Foi o que eu pensei.
– Não é nada difícil se acostumar com o meu jeito.
Carmem sorriu se perguntando se estava mesmo se acostumando não só com o jeito de ser de Marcela, mas também com a vida ao lado dela.
Nas semanas que se seguiram, Carmem foi percebendo o que era viver com uma mulher intensa como Marcela. A resposta para a pergunta de semanas atrás foi sendo respondia dia após dia. Não sabia definir aquela mulher porque mesmo quando era dura com as palavras, era delicada e maravilhosa na intimidade. Marcela era um mistério em diversos sentidos. Gostava de falar enquanto faziam as refeições. As idas à cozinha para comer de madrugada passaram a ser mais regulares. Carmem ficava admirando-a enquanto ela preparava alguma coisa sempre rápida para comerem. Passou a perceber que justamente pela vida solitária que levava, Marcela sentia falta de ter alguém para conversar, fazer coisas simples, para conviver de alguma forma. Chegou a imaginar se ela se dava conta daquele fato, acabando por concluir que não. Embora tenha falado sobre o deserto à sua volta logo que começaram a se relacionar, mesmo que a tenha feito sua amante, supostamente não o quis fazer para acabar com aquela solidão. Ou seria? Mesmo que ela se desse conta, tinha quase certeza que não admitiria. Marcela era altiva, de personalidade forte, decidida e não gostava de ser contrariada. Gostava de mandar, claro, isso ficou evidente desde o início. À mesa era uma mulher provocadora, na intimidade era a mulher voluptuosa. Tudo nela era sexy. Gostava de vestidos e cada um que usava Carmem sentia que usava com a intenção de seduzi-la. Na intimidade adorava ser correspondida com a mesma intensidade com que se entregava. Carmem correspondia porque o desejo que sentia era o seu maior adversário, mesmo temendo amar aquela mulher que não a tirava da cabeça.
Completaram dois meses de uma convivência cada vez mais íntima. Estavam tomando o café da manhã de sábado quando Carmem comentou:
– Vou ao shopping, estou precisando de roupas novas.
– Que coincidência, eu também estou precisando. Já nem tenho o que vestir.
– Você Marcela? Que absurdo! Está sempre comprando roupas.
– Sim, preciso estar apresentável em todas as ocasiões. Além do mais, é a minha discreta secretária que costuma comprar.
– Discreta ela é, mas parece um robô.
– Um robô? Não seja exagerada. Nunca tive uma secretária tão boa quanto ela. Descrição para mim é um dos melhores cartões de apresentação.
– Imagino que seja. Eu tenho uma curiosidade. Você me responde?
– Sim.
– Os seus empregados, falo da sua companhia, eles sabem que você é a Marcela Alvarez que as pessoas acreditam ser um monstro?
– Alguns sabem quem eu sou.
– É isto que estou querendo saber. Eles não comentam nada sobre a sua aparência, como consegue que não falem? A imprensa vive em busca de uma foto sua.
– Como você sabe, eu não tiro fotos.
– Eu sei, mas porque não falam? Você os ameaça?
– Essa é boa, é claro que não! Todos sabem que prezo a minha privacidade.
– Isto eu sei, mas o ser humano adora uma fofoca.
– Pode ser que falem, mas penso que tomam cuidado com quem o fazem. Afinal, segundo sei apreciam muito o salário que recebem. Não vamos ser ingênuas pensando que não se divertem com a situação. Este lado do ser humano não é segredo e não sou tão ingênua. Não me importo com as fofoquinhas que não chegam até a mim. Para evitá-las escolhi muito bem os chefes de cada departamento.
– Pensei mesmo em algo assim.
– A estrutura da companhia depende muito do fator humano. São os chefes que fazem os funcionários. Os que não se adaptam são demitidos, é assim que a coisa funciona. Então, vamos ao shopping?
Carmem não acreditou que Marcela iria mesmo ao shopping com ela.
– Está falando sério? Vai ao shopping comigo? Não consigo te imaginar no shopping a olhar vitrines, batendo perna à procura de roupas interessantes.
– Evidentemente não sou de ir a shopping, mas é claro que vou com você. Quero te ver experimentado vestidos.
– Lamento te decepcionar, mas preciso de saias e blusas. Também sapatos, eu adoro comprar sapatos.
– Precisa de vestidos também. Vou amar te ver com eles, mais ainda quando for tirá-los do seu corpo.
– Tudo com você acaba em sedução.
– Não gosta de ser seduzida?
Marcela perguntou começando a rir.
– Sem comentários.
– É melhor evitarmos o teatro. Vamos indo então?
– Está bem, mas só vou com uma condição.
Marcela a encarou querendo rir novamente.
– Condição? Está falando sério? Por que acha que vou aceitar que me imponha uma condição?
– Eu não acho, só sei que se não aceitar não experimento os vestidos e fim de papo!
– Isto não seria bom. Pode me contar a sua condição?
– Concordo em experimentar os vestidos e tudo que você quiser se me deixar te ver experimentando também.
– Ah, é essa a sua condição? Eu aceito, não sabia que você tinha este fetiche.
– Será que sou eu que tenho este fetiche?
Carmem deu um sorriso que não conseguiu disfarçar. Marcela percebeu sentindo que para ela, aquilo foi uma vitória.
Quando saíram o motorista abriu a porta de trás do carro para que entrassem. Sentaram e Carmem comentou:
– Não me importaria de dirigir.
– Prefiro a sua mão livre para segurar a minha.
– Está ficando romântica?
– Não acha romântico segurar na mão, Carmem?
– Você acha?
Marcela constantemente respondia as perguntas com outra pergunta. Com a convivência Carmem percebeu que aquilo era uma estratégia muito inteligente. Passou a fazer o mesmo. Realmente era mais cômodo responder uma pergunta com outra pergunta.
– Nem tudo precisa ser explicado, Carmem.
Marcela deu-se por vencida entrelaçando os dedos nos dela.
– Entregou os pontos? Quem diria Marcela.
– Fiquei animada por estar indo passear com você. Admita Carmem, você também gostou da ideia de passear comigo.
– Não seja ridícula, foi você que inventou de grudar em mim.
– Olha, se nós estamos vivendo juntas é natural irmos às compras juntas. Por acaso admiro as suas roupas, você se veste bem.
– Um elogio? Você está com segundas intenções.
– Eu não te elogio? Tem certeza disso? Então é uma falha que vou tratar de corrigir.
– Daqui a pouco estaremos no meio de uma discussão.
– Não, não estaremos. Depois das compras vamos correr para a cama.
– Com este calor? Meu Deus!
– Não seja desmancha prazeres, temos ar condicionado. Você pode se refrescar na piscina depois.
– Nem sei por que tem uma piscina na sua casa, nem te vejo usando.
– Gosto de usar a piscina no verão.
– Sim, eu também.
– Só espero que não se canse da minha rotina sem grandes novidades.
– Sou obrigada a viver com você, então não tenho nem o direito de me cansar.
– O seu lado azedo é bastante enfadonho. As mulheres deveriam portar-se de uma forma mais…
– Submissa?
– Não, claro que não! Vê como você é? Se não vivesse pensando que é minha escrava sexual não falaria essas bobagens.
– E não sou?
– Gostaria de saber em que momento eu te amordacei, torturei ou obriguei a fazer o que quer que fosse comigo.
– Temos que acordar que isto é uma questão de ponto de vista.
– Eu acho que podemos fazer amor na loja quando estivermos experimentando as roupas.
Carmem a olhou começando a rir.
– É isto que você quer?
– Não, eu não planejei nada. Essa ideia só me ocorreu agora.
– Deixa de ser espertinha, Marcela! Está escrito na sua cara.
– O meu desejo por você? Ah, este eu não nego. Pelo que eu sei você aprecia muito.
– Não recordo de tê-lo falado.
– Se falássemos tudo, imagina, seria um estrago.
– Por quê? Tem algo que queira me falar?
– Eu te falo tudo.
– Tudo? Está mentindo, ninguém fala tudo! Há sempre segredos que guardamos até de nós mesmas.
– Será?
– Sim.
– Não sei se concordo, não percebeu? Pensei em fazer amor com você no trocador de roupas e te contei.
– Claro, é do seu interesse que eu queira o mesmo. É isto que você faz.
– O quê?
– Preliminar com as palavras.
Carmem respondeu sorrindo, porque Marcela realmente sempre conseguia excitá-la.
– Não falei para te induzir.
– Como se eu acreditasse.
– Você me faz entender porque preferi viver sozinha até te encontrar.
– Não me sinto nem um pouco culpada por você ter mudado sua decisão. Não pedi para morar na sua casa.
– Eu sei que não pediu. Eu sempre me pego pensando sobre isto.
– Sobre isto o quê? Que eu não te pedi?
– Sim, pensei se pediria caso eu não tivesse imposto isto a você.
Carmem observou a expressão dela voltando a rir.
– Não acredito! Você está arrependida por ter-me obrigado a morar com você?
– Veja bem uma coisa, não diria arrependida. É como te falei, só pensei. Você me pediria para morar comigo?
– Lá vamos nós, eu perguntei primeiro. Está arrependida?
– De maneira nenhuma.
– Ah! Também não creio que você se arrependa de alguma coisa. É tão mandona e dona da verdade, suas ordens não podem ser desobedecidas.
– Não sei que ordens. Eu falo o que desejo e te deixo escolher se vai aceitar ou não. Nem armas eu tenho, acredita?
– Acredito.
– Seria péssimo, violência é algo que abomino.
– Juro que não sei se você está falando sério ou me gozando.
– Isto importa para você?
– Não importa mesmo, esqueça.
– Pediria ou não?
– Claro que não, Marcela!
– Lógico! Você é mais orgulhosa do que uma rainha.
– Para mim é evidente que você está louca para transar.
– Você também não está?
– Era só o faltava.
Carmem sorriu soltando a mão dela para ajeitar os cabelos. Foi uma forma de cortar o assunto, mas logicamente que não resultou.
– Não sinto a menor vergonha de admitir os meus desejos. Admira-me que você não saiba que as mulheres que tem a sexualidade bem resolvida são mais felizes.
– A minha sexualidade é muito bem resolvida.
– Mas você não é feliz, Carmem!
– Não sou, mas não tem nada a ver com a minha sexualidade. Também a vida não é só isto, por favor, não seja tão vazia!
– Vazia? Você está equivocada. “Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência.”
– Ah, meu Deus! Qual é o seu problema? Por que está sempre citando Santo Agostinho?
– Uma criança grava o que cresce ouvindo. A minha tia adora citar Santo Agostinho e eu aprendi. Por que isto te incomoda?
– Vou acabar por me arrepender de ter saído com você.
– Não seja má, isto é feio.
– Feio? Você só pode estar me gozando hahahaha.
– Sabe Carmem, quando eu era criança pensava uma coisa que hoje só se confirma.
– Posso saber o que você pensava?
– Eu pensava que quando me tornasse adulta muita coisa seria igual, mas sentia que a menina que eu era iria desaparecer.
– Hum. A criança que vive na gente some para que a adulta ocupe o seu lugar. Não é assim com todo mundo?
Carmem perguntou-se porque Marcela estava se lembrando do que pensava quando era criança. Talvez tenha se decepcionado com a vida de adulta. Seria aquilo ou…
– Talvez seja. No meu caso, perdi a sinceridade com a qual me expressava.
– Por que está falando sobre a sua infância?
– Não posso falar da minha infância?
– Sim, claro que pode, só não entendi a razão de mudar completamente o rumo da conversa.
– Estávamos a um passo de nos desentendermos. Não quero isto, não gosto de discutir com você. Prefiro fazer amor com você.
Marcela resvalou à mão até a dela. Uniu suas mãos olhando pela a janela calando-se.
Carmem percebeu neste momento que Marcela também não era feliz. Com tanto dinheiro e poder não era feliz. Também, quem era feliz sem amor? Fitou a janela também olhando as casas e os prédios por onde passavam. Numa cidade tão grande e repleta de pessoas ainda se sentia só.
Continua…
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